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Conheça a história da subcultura que floresceu em meados dos anos 1930 e ganhou notoriedade em 1943, em Los Angeles, Califórnia

Texto: Victor Rodder
Fotos: Mel Gabardo e Divulgação

La Pachuca

Em números anteriores da Hot Rods, já escrevi sobre o movimento Lowrider. Mas, em homenagem ao mês da mulher e, em especial, ao verdadeiro sentido de existir um Dia Internacional da Mulher, nesta edição vou contar um pouco mais sobre uma subcultura que floresceu em meados dos anos 1930 e ganhou notoriedade em 1943, em Los Angeles, Califórnia: Los Pachucos.

Os “pachucos” e “pachucas” são os elementos principais de uma subcultura criada pela juventude mexicana em meados de 1930, que se caracterizava principalmente pelo uso dos zoot-suits (ternos grandes e largos).

E as pachucas eram, e são – já que a cultura não está extinta – as mulheres que, como uma forma de demonstrar sua rebeldia frente às convenções sociais, passaram também a usar roupas que remetiam à sua classe social, étnica e, principalmente, ao estilo “pachuco”.

A origem do termo “pachuco” ainda é insegura, mas a maioria das fontes aponta que o nome teria se originado em Los Angeles, e era usado para designar aqueles trabalhadores mexicanos vindos da cidade de El Paso, Texas. El Paso era também conhecida como “Cidade de Chuco”, e por isso os migrantes que iam de lá para Los Angeles acabaram sendo chamados de “pachucos”.

Como muitos nomes e expressões que conhecemos hoje (hot rod, leadsled, etc.), o nome pachuco surgiu como pejorativo, mas acabou sendo incorporado e assumido como uma característica que causava orgulho naqueles que recebiam o título.

Caso policial

Os pachucos foram um subgrupo étnico que, como muitos outros, era marginalizado pela sociedade norte-americana durante a metade do século XX. Ele era composto basicamente por jovens mexicanos que, como já falei, adotavam o estilo zoot-suit. Os pachucos passaram relativamente desconhecidos pelo grande público norte-americano até que, em 1942, um assassinato mal resolvido levou à prisão quase 600 jovens mexicanos, e à condenação de 17 deles. Ao que tudo indica, eles foram presos e condenados injustamente, já que, em 1944, todos acabaram soltos quando do julgamento de uma apelação.

Essa prisão injusta desencadeou uma série de reportagens sensacionalistas nos jornais locais. Em contrapartida acendeu um espírito de revolta na comunidade mexicana de Los Angeles, em especial nos pachucos, e que culminou em uma escalada de incidentes de grandes proporções em 1943, que foi manchete em todos os EUA, ficando conhecido como “zoot suit riots”.

Desperdício de tecido

Basicamente os zoot suit riots tinham como “razão” o fato de que, em tempos de guerra e racionalização de tudo, inclusive tecidos, para muitos norte-americanos, a confecção e uso de roupas tão grandes e tão largas era uma afronta. Isso, associado ao preconceito racial, era como misturar fogo e pólvora. Não demorou muito para que pachucos e militares se confrontassem e os mexicanos acabassem feridos, humilhados e despidos de suas roupas.

A notícia dos primeiros confrontos ocorridos em Los Angeles apenas fez aumentar os números de casos parecidos, e os confrontos com mexicanos foram relatados em várias cidades da Califórnia. À medida que a violência aumentava, milhares de militares brancos e civis se uniram aos ataques, marchando pelas ruas, entrando em bares e cinemas, e atacando qualquer jovem latino que encontrassem. Em um dos incidentes, os marinheiros arrastaram dois pachucos até o palco de um cinema, e enquanto o filme era projetado na tela, arrancaram suas roupas na frente de todos, e urinaram em seus ternos.

Infelizmente, como ainda hoje podemos constatar, os EUA são um país impregnado de racismo e injustiças, e na década de 40, pouco tempo após o país ter entrado na Segunda Guerra Mundial justamente por conta de um ataque de japoneses, a tensão racial aumentou muito.

É bom ressaltar que, nos dias em que os conflitos aconteceram, embora a polícia acompanhasse os militares e civis que marchavam pelas ruas da Califórnia, estes mesmos policiais não tinham “ordens para prender nenhum dos manifestantes”, e alguns deles até participavam dos tumultos. A história só acabou depois de vários dias, quando mais de 150 pessoas ficaram feridas e a polícia prendeu mais de 500 civis latinos sob acusações de “tumulto” a “vagabundagem”. Brancos presos? Não… Não houve prisões relatadas.

Após esse conflito, não é preciso dizer que os jovens latinos, homens e mulheres, se endureceram e passaram a encarar o movimento “pachuco” não mais como um modismo, mas sim uma questão social muito mais séria e que envolvia as liberdades individuais e o preconceito racial. Especialmente as mulheres desse movimento passaram a trilhar um caminho muito difícil, e foram alvo da atenção de toda a sociedade, estigmatizadas pela população, inclusive dentro de suas próprias comunidades culturais.

Roupas e estilo

Como a pachuca era a versão feminina dos pachucos, elas também adotaram um estilo de vestimenta distinto. O “uniforme padrão” para uma pachuca era a saia de gabardine acima do joelho, sweter ou terno no padrão “zoot”, e sandálias estilo “huarache”. Algumas usavam a versão masculina do terno zoot, que também foi adaptado para as mulheres. Seus cabelos eram penteados com pomadas de cabelo, e os topetes altos e os cachos volumosos eram outra marca registrada. Finalmente, a maquiagem era pesada, particularmente o batom, que era geralmente de cores escuras.

Outra característica do estilo pachuca foi o “caló”, um dialeto escolhido pela juventude mexicana, que era uma mistura de gírias rimadas. Espanhol misturado com inglês e outras línguas indígenas, como o náhuatl (outro dialeto da região do México), e embora esse fosse um dialeto popular, as pachucas eram muito criticadas por falarem essa língua, já que era vista como algo “não feminino”.

O estilo pachuca desafiou a percepção dominante de feminilidade durante seu auge. Em meados dos anos 40, o estilo ia frontalmente contra o estilo “meia soquete e saia rodada”, que predominava na moda feminina da época. As pachucas rebelaram-se contra os ideais do “mainstream” da beleza e por isso chegaram a ser considerados como “radicais e anti-americanas”. Mas nem por isso abaixaram suas cabeças.

Em verdade, se compararmos as coisas, as pachucas foram, talvez, as primeiras mulheres a encarnarem a rebelião contra a domesticidade feminina, desafiando a ideia de “comportamento feminino apropriado” e seriam – resguardadas as devidas proporções – a versão original do não ao “bela, recatada e do lar” que invadiu as redes sociais brasileiras no ano passado.

Pachucas – degeneradas e ultra sexuais

Após o incidente ocorrido no verão de 1942, uma imagem negativa da juventude méxico-americana passou a ser propagada, e os jovens eram vistos como desordeiros, e logo os jornais da área de Los Angeles passaram a escrever matérias sobre a “onda do crime mexicano” ou sobre o “problema mexicano”. Nesse contexto, as pachucas eram retratadas como promíscuas. “Hiper-sexed degenerates” era o termo usado em 1943. Os jornais “Los Angeles Evening Herald” e “Express” publicaram tantas reportagens sobre o tema, desencadeando uma campanha sensacionalista sobre o suposto comportamento sexualmente promíscuo das pachucas, que culminaram influenciando inclusive os jornais de língua espanhola, como “La Opinión”, fazendo que, de uma hora para outra, pachucas e prostitutas fossem sinônimos. Os estereótipos raciais e a desigualdade de fontes externas e internas foram fortes armas naquele verdadeiro massacre da mídia, que visava em verdade apagar uma subcultura legitimamente americana.

E isso não se resumia em uma questão racial, pois até mesmo dentro das comunidades mexicanas, as pachucas eram mal vistas.

Os pais dessas jovens, especialmente as mães, acreditavam que a cultura pachuca estava destruindo costumes e tradições mexicanas. Estas mães acreditavam que suas filhas estavam deixando suas tradições e valores para se tornar pachucas. E quando isso chegou aos jornais de língua espanhola, e as pachucas passaram a ser chamadas de prostitutas e os pachucos de cafetões, literalmente o caldo entornou, e alguns pais mexicanos foram tão longe em no contra-ataque, que chegaram a chamar a polícia, prender suas filhas e após isso enviá-las ao reformatório feminino “Ventura School for Girls”.

O legado das pachucas

Não só em Los Angeles, mas ao redor do mundo, a subcultura pachuca continua a ter um forte impacto sobre a comunidade mexicana. O zoot-suits continuam a ser uma escolha popular para jovens latinos e há também aqueles que recriam o estilo, como é possível ver em uma das fotos do ensaio fotográfico de Mel Gabardo “La Pachuca”, a única colorida dentre as fotos que ilustram essa reportagem.

Lenta, mas progressivamente, as pachucas vêm ganhando o devido reconhecimento do impacto que elas tiveram em seu tempo, e nas áreas ao redor de Los Angeles existem hoje muitos eventos que homenageiam o estilo dessa subcultura.

Em 2012, a Fundação Dolores Huerta organizou um evento pachuco no centro de Los Angeles em homenagem ao 70º aniversário do julgamento da “Sleepy Lagoon” (1942) e dos “Zoot-suit Riots”. A Galeria Espacio 1839 em 2014 recebeu uma exposição chamada “Estilo como Resistência”, que homenageou a cultura chicana e a LA Plaza de Cultura e Artes, um museu e centro cultural dedicado a mexico-americanos localizado no centro de Los Angeles, possui uma ala próprio sobre a cultura pachuca. O Museu Fowler da UCLA, em 2016, apresentou uma exposição do trabalho de José Montoya, intitulado “Colheita abundante: obras sobre papel/ obras sobre a vida”, que exibiu milhares de fotos de pachucos e pachucas.

Sei que lendo isso tudo parece um pouco de exagero, mas esses dados estão todos disponíveis para consulta, e uma boa forma de entrada nessa triste passagem da história da luta das mulheres pelos direitos civis é o site.

VEJA TAMBÉM: Cultura: Cuba, uma nação rat Rod.

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