Picape Ford 1929: É bom para o moral

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Picape Ford 1929
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Concebida a partir de sobras de outros projetos, essa picape ganhou personalidade própria sem esquecer da memória; acessórios pontuais e pintura enferrujada enaltecem cultura rat rod – sem contar que o mito Jack Costella aprovou!

Texto: Bruno Bocchini
Fotos: Ricardo Kruppa

Picape Ford 1929

Ferruginha é um distrito do município brasileiro de Conselheiro Pena, no interior do estado de Minas Gerais. Mas também é o apelido carinhoso desta picape Ford 1929 que pertence a Moacir Mansur Boscardin, 58 anos, funcionário público de Curitiba (PR). O modelo surgiu como parte de pagamento em uma troca que Boscardin realizou: foram vários carros inacabados por um restaurado. “Essa picape ficou três anos no jardim de casa e adquiriu uma coloração muito peculiar: ferrugem. Aí tive a ideia de fazer um carro despojado. Sempre gostei dos rat rods e não tive dúvida”, explica.

A ação partiu de sobras de projetos anteriores nos moldes norte-americanos. Foram três anos até que pudesse ser ouvido o ronco do motor. “Eu tenho outros hots e alguns originais também. Mas confesso que fiquei muito entusiasmado, pois pude participar do projeto e da construção desta picape 29. Algo bem diferente da restauração de clássicos ou construção de um hot. Muitas das ideias vieram de revistas americanas. Mas na hora da prática se transformam apenas em referências. O projeto muda muito. Cria personalidade própria e se torna único”, garante o entusiasta.

Mas esse entusiasmo de Boscardin não parece ser tão atual. Ainda garoto, ele ouviu o ronco de um clássico cupê – som que mexeu com o imaginário instantaneamente. “Os garotos de minha idade tinham como sonho um pedalinho Jeep 1951, que era muito popular e que eu também ganhei logo cedo. Mas quando tinha uns 12 anos fui ao banco pagar uma conta para meu pai. Encostei a “magrela” e quando já estava saindo um senhor bateu na partida de um Ford Coupé 40 com motor flathead. Aí tudo começou: paixão eterna. O meu pai sempre me incentivou e ensinou a regular o motor da Kombi 1960 que anos mais tarde ganhei de presente e que conservo até hoje com muito carinho, em sua memória”, recorda.

Essas sensações e sentimentos reforçados na infância transformaram quase como uma “filosofia de vida” as decisões que o entusiasta mantém. Basta questioná-lo sobre a provável venda de alguns de seus automóveis. “Tenho alguns carros que dificilmente venderia. Eles têm um valor sentimental muito forte, fazem parte da minha história, mas confesso que às vezes gosto de trocar de brinquedo. É bom experimentar outros modelos, ter novas experiências e, em certas ocasiões, usar os recursos da venda para investir em outro projeto e na melhoria ou atualização dos já existentes. Como aconteceu com essa picape”, explica.

Picape Ford 1929
Picape Ford 1929

A doce realidade em detalhes

Essa picape Ford 1929 foi adquirida no ano de 2009 e as transformações foram totais – desde o chassi boxeado, suspensão com eixo rebaixado em 4 polegadas, freios a disco nas quatro rodas, para-lamas e estribos que remetem ao Ford T. Sem falar do visual particular: rebaixamento de teto, escapamento dimensionado com ponteiras “cabeça de dragão” e demais acessórios aplicados minuciosamente. “Na verdade, cada peça colocada no projeto tem uma história e sei exatamente de onde vieram. Isso é muito gratificante, pois na busca os velhos amigos sempre estiveram presentes, colaborando com ideias, com peças e trabalho no mais autêntico espírito rodder. Sem contar também com os novos amigos que se faz”, reforça Boscardin.

Diante da estética, a grade é do caminhão 1932 estampada inteira sem divisões. Já as ponteiras dianteiras, que funcionam como para-choques, são do Ford 1949. Os faróis dianteiros foram incorporados do raro Velle 1924. As rodas vieram do Ford 1934 com pneus convencionais, mas para somar o estilo rat rod a pintura é o grande destaque: ferrugem natural envernizada em fosco e pinstripe. “A parte visual foi bem trabalhosa. A combinação de peças exige um estudo bem aprofundado. Tem que equilibrar harmonia estética com segurança. A pátina, para ficar de acordo, passou por lixamentos, repasse de whash primer, tf7, lixamento e exposição ao tempo. Essa ação de lixamento foi repetida várias vezes – demorou um ano e meio”, comenta.

Se não bastasse o trabalho incansável diante da pintura desgastada, Boscardin ainda lembra que sua esposa o surpreendeu durante o processo de finalização e acabamento da carroceria. “Minha esposa foi comprar cinco latas de verniz em spray e passou no carro todo. Quando voltei do trabalho estava pronto. E sabe, ficou muito bom. Esse é o espírito”, comemora.

Picape Ford 1929
Picape Ford 1929

Quebra-cabeça e colcha de retalhos

O painel da picape é de um carro típico e clássico inglês, mas há volante de um Ford T, coluna de direção do Ford 29, caixa de direção do Ford 37 e os bancos sob medida são em couro. “O rat é bem isso, uma colcha de retalhos, um quebra-cabeças feito com partes e peças de outros carros garimpados em oficinas, ferros-velhos e garagens dos amigos. Peças que você compra barato ou até ganha para desocupar lugar. O que acaba saindo bem mais em conta”, sugere Boscardin.

No cofre, quem comanda a cena é um motor Emi-sul de câmera hemisférica. Esse bloco ficou conhecido por ser utilizado pela Simca na década de 1960 – similar aos Hemi norte-americanos. Ele tem cerca de 150 cavalos, mas Boscardin optou por incluir um carburador Holley 390 cfm, coletor de escape dimensionado feito sob medida, caixa de câmbio do Maverick 4 cilindros e diferencial 4:27 (uma relação bem curta similar à dos Simca, uma vez que esse motor tem pouco torque, mas gira a 5mil rpm). Os freios são a disco nas quatro rodas, sendo na frente de GM Opala e atrás de GM Kadett.

A suspensão aplicada na traseira é coil over e na frente de eixo rígido com um feixe de mola transversal Brás. “É um carro maravilhoso. Tem bom espaço, pois a cabine é um pouco maior que a original. Na verdade é um modelo feito sob medida para mim – desde a posição dos bancos, pedaleiras e volante. O carro me veste. E é muito prazeroso. O motor gira bem e o ronco é indescritível. A única mudança que talvez fizesse seria acrescentar um teto solar de lona, fora isso é um projeto que me agrada ao extremo”, afirma Boscardin.

Em pleno Curitiba Motor Show do ano passado foram feitos os pinstripe e a pintura nas portas em homenagem ao clube Curitiba Roadsters, que Boscardin ajudou a criar. “Também foi pintado o nome da minha filha Nicole no painel e depois demos uma volta na pista do Autódromo de Curitiba. Foi um momento muito especial e inesquecível, pois a família toda curte muito os antigos”.

Boscardin conta que as pessoas ficam surpresas com o modelo, isso porque carros assim são vistos apenas em encontros nos Estados Unidos ou em revistas especializadas. “A Ferruginha causa surpresa às pessoas. Elas vão descobrindo os detalhes aos poucos: as lanternas e cor, o painel que acende as luzes nos olhos das caveiras, as ferraduras e o estilo fazendeira, bem como os pinstripes. Tudo encanta”, conclui.

Ainda tem dúvida sobre a qualidade e competência do projeto? Saiba: Jack Costella, piloto que bateu mais de 100 recordes de velocidade, esteve em outubro na casa de Boscardin e conferiu de perto a picape Ford 1929. “Ele adorou o carro, aprovou muito. A lenda se apaixonou pela picape”, vibra o entusiasta.

Picape Ford 1929
Picape Ford 1929

Mecânica

Bloco Emisul de câmera hemisférica, carburador Holley 390 cfm, coletor de escape dimensionado feito sob medida, caixa de câmbio do Maverick 4 cilindros, diferencial 4:27, freios a disco nas quatro rodas, potência de 150 cavalos;

Estrutura

Suspensão aplicada na traseira coil over e na frente de eixo rígido com um feixe de mola transversal;

Interior

Painel clássico inglês, volante de um Ford T, coluna de direção do Ford 29, caixa de direção do Ford 37 e os bancos sob medida em couro;

Estética

Grade do caminhão 1932 estampada inteira sem divisões, ponteiras dianteiras do Ford 1949, faróis dianteiros do raro Velle 1924, rodas do Ford 1934, pneus convencionais, pintura ferrugem natural envernizada em fosco e pinstripe, acessórios na caçamba estilo fazenda;

Quem fez?

Projeto: Moacir Mansur Boscardin; adaptação chassi e mecânica: Haroldo Froma Adaptações; escape: André – Escapamento dos Estados; elétrica: Rubens Gadotti; estofamento: Lourival (cata ovo) e Paulo Dembick; pinstripe: Márcio Bkw; tela: Gabriel Alves Neto e pintura pátina ferrugem: Moacir e Fernanda Boscardin.

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