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Frase acima, pintada em um carro americano, resume o espírito do estilo rat rod

Texto: Manoel G. M. Bandeira
Fotos: Ricardo Kruppa

Rat rod

Ninguém sabe ao certo como surgiu o termo rat rod. O que se sabe, porém, é que o termo apareceu na mídia pela primeira vez em uma reportagem feita com um grupo conhecido como Burbank Choppers, da localidade de Burbank, na Califórnia (EUA). Curiosamente, este grupo é extremamente purista. Seus projetos são criteriosos e só utilizam peças de época, nem reproduções fiéis eles aceitam.

O termo rat rod vem gerando muita polêmica desde então. Algumas pessoas consideram que carros construídos levando-se em consideração os padrões dos primeiros hot rods não podem nem devem ser chamados de rat rods. Simplesmente porque não têm um acabamento esmerado, pois esta era justamente uma das características dos primeiros hots, que tinham um compromisso muito maior com o desempenho do que com a estética.

Logo que se começou a falar em rat rods, muita gente apareceu com carros que estavam esperando na garagem uma oportunidade de receber nova pintura e cromados, o que poderia demorar muito tempo. Então, com a onda dos rats, seus donos encontraram uma boa desculpa para rodar com os carros assim mesmo. Porém, a maioria deles preferia dizer que seu carro ainda estava “em construção”.

Não demorou muito para algumas pessoas assumirem que tinham adorado a ideia de ter um carro que não precisasse de uma escolta policial para prevenir riscos e eventuais amassados. A utilização mais tranquila dos rat rods atraiu muita gente. E até aqueles que não tinham uma carroceria adequada partiram para carrocerias de fibra de vidro, com pinturas imitando desgaste e até ferrugem, recriando assim rapidamente a ação do tempo, o que levaria anos e anos para acontecer.

Aqui no Brasil a escassez de matéria prima é muito grande. Nossa frota de antigos foi sucateada e derretida em siderúrgicas e hoje, provavelmente, o apartamento onde você mora tem dentro do concreto um pedacinho de algum Ford ou Chevrolet antigo. Felizmente existe a fibra de vidro e muita gente apaixonada, que dedica boa parte da sua vida para recriar do zero os carros que tanto amamos.

Se uma carroceria de lata ou de fibra vai se tornar um hot ou rat, isso depende de cada dono, dos seus sonhos e do uso que cada um pretende dar ao seu carro. Pensar em fazer um rat rod porque é mais barato não se justifica, pois a maioria dos cuidados que um rodder dedica ao seu carro é necessária nos dois projetos. A falta de acabamento pode baratear um pouco o custo, se o carro descender de uma carroceria original na qual o tempo já se encarregou de promover o desgaste. Porém, no caso das réplicas em fibra de vidro, eu diria que uma pintura envelhecida vai dar muito mais trabalho do que uma pintura convencional, e mais trabalho demanda maior custo, invariavelmente. Deixando os custos de lado, vamos tentar entender por que uma pessoa decide ter um carro desgastado quando poderia ter um carro bem acabado e brilhante.

Se você é novato neste meio, talvez não entenda o que vamos falar. Mas quem já tem anos de estrada certamente vai recordar muitas passagens de sua vida de rodder. Um rodder é um saudosista nato, ele adora tudo que é antigo, gosta de Rock and Roll, de móveis antigos, enfim, de tudo que remeta às décadas de ouro de 1940 a 1960. Encontrar um carro guardado em uma garagem há 30 ou 40 anos é o sonho de todos nós. Retirar as teias de aranha, limpar a poeira do vidro com as mãos trêmulas, tentando ver como está o interior do carro, abrir a porta lentamente e sentir o “cheiro de carro velho”… Quem já teve esta experiência sabe bem do que estou falando.

É evidente que isso é muito difícil de acontecer hoje em dia, como também é difícil encontrar um carro antigo jogado no meio do mato à beira de uma estrada, enferrujado e abandonado. Mas mesmo sabendo que isso é quase impossível, eu não deixo de olhar e procurar  em minhas viagens. Agora imagine se a sorte lhe sorrisse desta forma e você encontrasse um carro assim, empoeirado, mas em boas condições.

Imagine se você limpasse o platinado e jogasse um pouco de gasolina no carburador, colocasse uma bateria e… “bingo” o motor roncou, soltou um tufo de fumaça reclamando do tempo todo que ficou adormecido, mas em seguida exibiu seu ronco forte e vigoroso. Você leva o carro a uma oficina, limpa a poeira, refaz a parte elétrica, revisa os freios e lubrifica a suspensão, da uma volta no quarteirão e sente que o carrinho está tão alegre quanto você. Pergunto então: você teria coragem de desmanchar um carro destes, trocar sua mecânica, pintar de vermelho metálico, matando toda essa aura nostálgica?

Se você nunca viveu esta experiência pode estar rindo agora, querendo jogar a revista na parede. Mas se já teve este prazer você entende o que leva uma pessoa a comprar um kit de fibra, criar uma pintura envelhecida e até mesmo enferrujada, mesmo gastando mais do que se fizesse uma pintura linda e brilhante. É a busca por essa aura nostálgica, por esse sonho impossível que leva uma pessoa a fazer um carro assim.

Uma coisa deve ficar bem clara: hot rods são carros geralmente americanos, com raras exceções, e com modelos hot fabricados até o início da década de 1960, (algumas vertentes consideram o ano de 1961, outras 1963). Daí em diante temos os muscle cars, ponny cars etc. Um rat rod deve descender de um hot rod, portanto não podemos considerar Corcel, Chevette ou Opala nem como hot rod ou mesmo rat rod. Não tenho nada contra carros nacionais, inclusive acho muito válida a recuperação destes carros, pois são parte importantíssima da nossa história, mas não podemos chamar nenhum carro nacional de hot ou rat rod. Outro detalhe importante é com relação à segurança, tanto em um hot rod, como em um rat rod.

A execução do projeto deve primar pela segurança e em ambos os casos a parte mecânica deve estar em perfeita ordem. Um rat rod não é um lixo ambulante e deve ser utilizado de maneira segura, dando prazer ao seu dono e a quem o vê passando pela rua ou mesmo parado em uma exposição. Todos somos responsáveis, os rodders que têm mais experiência devem orientar os mais novos, vamos demonstrar capricho em nossos projetos.

Agora, rat ou hot, você decide qual projeto lhe agrada mais, qual deles se enquadra no uso que você pretende. Se quer um carro para exposição e pequenos passeios, se quer um carro para viagens ou até mesmo uso diário, mas pense sempre em segurança e capricho. Por fim fica aqui uma frase que vi pintada em um carro americano…

VEJA TAMBÉM: Picape rat rod 1936: óxido…nitroso!

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