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Só depende de boa vontade política regulamentar a emissão de documento para um carro antigo modificado ou hot rod

Texto: Manoel G. M. Bandeira
Fotos: Divulgação

O tema desta edição interessa a todos os proprietários de hot rods. Mas, principalmente, àqueles que querem construir um novo projeto e esbarram na grande dificuldade, que é documentar um carro antigo que, por um motivo qualquer, esteja sem registro. Como estamos em 2014, vamos considerar que os carros que se enquadram na descrição de hot rods foram fabricados até 1961. Vamos considerar, também, que um carro que teve a sorte de ter donos caprichosos e dedicados pode rodar, em média, 30 anos. Sendo assim, um carro que foi fabricado em 1950 e rodou normalmente por 30 anos, durante este tempo teve sua documentação sempre regularizada. Porém, quando deixou de rodar, seu documento ficou esquecido em uma gaveta qualquer. Isso aconteceu por volta de 1980, ou seja, há 34 anos. Durante este tempo todo, o carro sofreu a ação do tempo, a lataria enferrujou, a parte mecânica apresenta sinais de que não pretende voltar a trabalhar, muitas peças foram retiradas ou depredadas, alguns podres surgiram na carroceria e no chassi. E isso tirou o ânimo de qualquer colecionador que pretendesse iniciar uma restauração. Foi assim que ele acabou sendo abandonado em um desmanche, já sem frisos e maçanetas, sem motor e faróis, sem para-choque e sem vidros. Tudo indica que seus dias de glória acabaram, pois é inviável recuperar um carro assim, o custo seria alto demais.

Joãozinho e seu Hot

Joãozinho viu na casa de seu amigo uma revista de carros diferentes, uma revista de hot rods. Imediatamente ele se identificou com o que viu e passou a pesquisar na internet em busca de mais fotos e informações, visitou sites e comprou mais revistas. Em pouco tempo ele estava decidido: iria construir seu hot. Joãozinho passou a conviver com outras pessoas que, como ele, também eram aficionadas por hot rods. Alguns já haviam construído seus carros e outros ainda estavam à procura do modelo ideal. Fundaram um clube, onde poderiam movimentar melhor as coisas criando eventos, com reuniões constantes alimentavam a imaginação uns dos outros e punham em prática aquilo que sonhavam, ajudando-se mutuamente a construir novos carros.

Por meio do clube passaram a promover eventos educativos e filantrópicos e, sempre que podiam, arrecadavam grandes quantidades de donativos e entregavam a pessoas necessitadas. As dificuldades para construir e manter um hot eram pequenas se comparadas ao prazer de estar fazendo algo útil. Recuperar antiguidades montando carros como se fazia nos anos dourados, resgatando a cultura de uma época, era apenas o meio que encontraram para cultivar a amizade e o prazer de reunir pessoas em torno de algo maior.

Compreensão das autoridades

As autoridades, que em outros tempos poderiam impedir que esses carros rodassem, por se tratar de projetos modificados e, muitas vezes, sem o acompanhamento de um engenheiro especializado, mostram muita sensatez, pois perceberam que os hots não fazem nada de errado. Pelo contrário, eles atraem a atenção por onde passam, provocando satisfação nas pessoas, rodam sempre macio, passeando e curtindo, geralmente em grupos de carros em verdadeiro desfile a céu aberto que mais parece ter vindo diretamente do passado. Com as ações sociais, muita gente passou a admirar ainda mais os hots, e eles são bem-vindos por onde passam, sendo inclusive solicitados como atração principal de muitos eventos. Joãozinho está completamente engajado nesta luta, ajuda a todos e, de tanto fazer isso, já aprendeu a arte da mecânica de essência, já sabe regular um carburador, sabe ajustar um para-lama, uma grade, e até já se arriscou a pintar um carro inteiro de um colega seu. Mas ele tem uma frustração: ainda não tem o seu hot.

Ford 1950

Um dia, perdido em um bairro da cidade, ele foi atraído pela força invisível do desejo a um ferro-velho. É muito difícil para qualquer rodder passar por um ferro-velho ou desmanche sem pelo menos diminuir a velocidade e dedicar um olhar mais cuidadoso à procura de alguma pista de qualquer pedaço de carro que possa se encaixar em um novo projeto. E foi assim que Joãozinho viu, pelos vãos da cerca, entre pedaços de carros, motores e peças enferrujadas, o tampão traseiro de um Ford 1950. Imediatamente estacionou seu carro, com o coração batendo rápido como um motor acelerado, não conseguiu disfarçar seu interesse e foi logo perguntando sobre o carro. Meia hora mais tarde, já com alguns quilos de peças retiradas de cima da carroceria, eis que finalmente surge o velho Ford. Se você já passou por isso sabe muito bem que nesta hora você não vê defeitos. Mesmo que o carro esteja extremamente ruim, seus olhos irão encontrar alguma qualidade nele.

Para cada possível problema (muitos podres, por exemplo), você encontra uma qualidade. “Mas ele tem a tampa do porta-luvas, e está até com a fechadura”. É assim mesmo, meia dúzia de qualidades vencem um milhão de defeitos nessa hora. Acertado o preço e as condições de pagamento, só aí Joãozinho lembrou-se de perguntar: “E os documentos?”. Infelizmente o carro já estava estaleirado no mesmo lugar há mais de 20 anos, quase enterrado no chão, o desmanche já havia trocado de dono três vezes neste período. Documentos? Nem pensar. A falta do documento pesou bastante e quase fez a balança pender para o lado negativo da negociação. Então Joãozinho coçou a cabeça, pensou e, em seu cérebro, como o carro já estava quase pronto, ele decidiu levá-lo mesmo assim. Começou o árduo trabalho de recuperação, desmontando tudo que podia. Toda peça retirada do carro recebia todo o carinho, limpeza, cromagem, pintura, retificação etc. E assim, aos poucos, o carro ia tomando forma. Muitas vezes, à noite, quando deitava a cabeça no travesseiro, um arrepio lhe percorria a espinha. E os documentos?

Tem solução!

Essa história aconteceu muitas vezes comigo e com vários amigos. Hoje temos muita gente produzindo peças para hots de altíssima qualidade aqui mesmo no Brasil. Peças que vão desde carrocerias até chassi e suspensão. E garanto que a maioria delas é bem mais robusta e reforçada do que as que equipam muitos dos carros atuais produzidos pelas grandes montadoras. Não quero dizer que os carros produzidos hoje sejam fracos, mas sim que os rodders simplesmente vêm de uma escola na qual tudo deve ser extremamente reforçado e seguro. Temos várias oficinas especializadas empregando profissionais altamente gabaritados, que têm sua profissão muito valorizada justamente por trabalharem em projetos artesanais e especiais.

O segmento de hot rods só não cresce mais porque empacamos justamente na documentação dos carros. Mas este não é um problema tão difícil assim de ser resolvido. Basta encontrarmos alguém na classe política que seja sensato e que queira fazer realmente algo de bom. Eu sei o que você está pensando, mas não vou comentar. Carros com mais de 50 anos são relíquias, não podem ser considerados simplesmente como veículos normais de uso diário. Eles são máquinas do tempo e devem ser considerados como tal. Carros antigos, com mais de 50 anos, modificados, com apelo histórico, como os hot rods, devem ser estimulados, pois só trazem benefícios à sociedade, embelezando e colorindo nossas cidades, atraindo e ajudando gente, pois os rodders sempre estão envolvidos em projetos sociais.

Uma lei que regulamente a emissão de um documento especial para carros originais ou réplicas baseadas em carros fabricados há mais de 50 anos e que tenham apelo histórico/cultural, é absolutamente viável. Diria mais: é até lógico e sensato. É claro que devemos tomar alguns cuidados para que isso não se torne uma indústria que vise apenas o lucro e que acabe ficando nas mãos de uns poucos aproveitadores.

Sugestão de projeto

Para começarmos um estudo, segue aqui a minha sugestão de projeto para documentar carros com apelo histórico:

1)Partindo de fotos do carro original em qualquer estado de conservação, que devem ser anexadas ao processo, ou então da nota fiscal de um kit réplica emitida por empresa devidamente constituída, o proprietário faz uma declaração em cartório assumindo a responsabilidade pelo carro, declarando que ele não é roubado, e que será construído dentro dos padrões de segurança necessários, sendo de sua responsabilidade qualquer acidente ocasionado por falha mecânica no projeto.

2)Cada carro deve ser projetado por um engenheiro mecânico devidamente qualificado, que, além de assinar o projeto, deve também acompanhar a execução.

3)Cada pessoa tem o direito de requerer documentação para um carro a cada três anos, tempo este em que o carro não pode ser vendido ou transferido para outra pessoa, a não ser em caso de morte do proprietário.

4)Ao projeto devem ser anexadas notas fiscais de peças novas que irão compor as partes de suspensão, freios e direção do carro.

5)Um clube especializado e devidamente credenciado irá emitir um laudo de conformidade, no qual reconhece que se trata realmente de um carro com apelo histórico.

6)Deve ser acrescentada ao projeto, também, nota fiscal do motor, caixa de câmbio e diferencial; se usados, deve acompanhar também a baixa da documentação do carro doador junto ao Detran, ou somente a baixa do carro junto ao Detran quando esta for requerida pelo próprio montador.

7)Em caso da utilização de motorização com mais de 30 anos de fabricação, o construtor pode apresentar somente uma declaração feita em cartório de que a mecânica não é produto de furto, sendo que, se for provado o contrário, ele será enquadrado por roubo, conforme manda a lei.

Está lançada a ideia, agora depende de cada um de nós. Muitas das coisas que hoje nos parecem fáceis e normais foram vistas como extremamente difíceis pelas pessoas que lutaram para conseguir sua realização.

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