Modelo raro, cupê enaltece projeto fordista e revive originalidade com “espírito” hot rod juvenil

Texto: Bruno Bocchini
Fotos: Ricardo Kruppa

Ford T Coupé

Seu filho provavelmente assistiu ao filme de animação “Cars”, lançado em 2006. No enredo aparece um personagem, Lizzie, que é, nada mais nada menos, do que um Ford T Coupé. Essa versão do “T” duas portas foi reverenciada por vários autores, como Wall Disney, com o “carro da vovó Donalda”. Trata-se de um modelo particularmente especial para muitos entusiastas: uma peça de museu. E, para as crianças, um “carrinho engraçadinho”.

Antonio Carlos Marin, 54 anos, administrador de São Paulo, adquiriu este modelo T 1924 no bairro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, há seis anos. O automóvel estava parado na garagem havia exatos trinta anos. “Por ser um veículo difícil de ser encontrado, fiquei surpreso pela história. A antiga proprietária disse que só o venderia se eu o mantivesse original. É claro que, depois de certo tempo, eu o transformei em um hot, mas mantive as características essenciais do carro. A viúva ainda me falou que só existiam no Brasil dois modelos deste veículo, esse e outro que ficava no Museu da Ulbra”, conta.

O modelo T Coupé já era equipado, na época, com motor de 4 cilindros 2.896cc e 20hp a 1800 rpm. Essa receita era capaz de chegar à velocidade máxima de 70 km/h com um consumo de 7 km/l, tanque de 38 litros e peso de 545 kg. Movido a álcool, gasolina ou a mistura de ambos, o “T” é considerado o primeiro carro flex do mundo. Nos EUA, era abastecido com gasolina, mas algumas unidades vendidas no Brasil, principalmente em Pernambuco, centro de produção de cana de açúcar na época, rodavam apenas com álcool e até mesmo com querosene.

Marin decidiu emplacar o mesmo ritmo do bloco 4 cilindros no cupê. A escolha foi pela mecânica de Chevrolet Opala, o bloco 151s com carburação dupla Weber 446, coletor de alumínio, câmbio manual e diferencial também de Opala. “Eu queria justamente um cupê que pudesse rodar diariamente nas ruas, sem problemas. Por isso optei por uma mecânica mais simplista”, explica o entusiasta.

No interior do “T” há originalidade – e qualquer um pode ficar na dúvida quanto ao volante, mas ele não é um acessório adquirido no aftermarket. A peça é original e escamoteável lateral (porque, à época, permitia que o condutor se acomodasse com mais facilidade no banco). O recurso tem fácil manuseio: basta deslocar o aro para o lado que a trava automaticamente segura a peça; após o condutor entrar, um pequeno movimento já devolve o volante à posição original. Os instrumentos são Cronomac e o painel acompanha a cor da carroceria do modelo.

A estética atribuiu ao clássico um estilo mais hot rod: teto ragtop, cor vermelho vivo, rodas U.S. Wheels e pneus traseiros radiais GT Cooper Cobra. Porém, alguns detalhes, como emblema sobre o capô e cromados das lanternas e puxadores, remetem à década de 1920. “Se o antigo proprietário estivesse vivo acredito que ele estaria feliz em ver o carro funcionando novamente. Não tem como, é um automóvel impecável pelas linhas que adota, tem muito requinte e esbanja um “ar” jovem ao mesmo tempo”, opina Marin.

Ícone da indústria automobilística mundial, o “T” sempre foi referência, mas a versão duas portas fechada é, sem dúvida, a famosa “cereja do bolo”. Não duvide: pode ser que, algum dia, a tataraneta de Henry Ford tenha interesse em arrematar o clássico de Marin. Não seria nada mau. Ou seria?

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