Técnica: Sergio Liebel – Um rodder que vive seus carros

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Conheça a história de Sergio Liebel, ex-piloto de aviões de Curitiba que descobriu os hots e os transformou em sua paixão

Texto: Manoel G. M. Bandeira
Fotos: Ricardo Kruppa

Sergio Liebel

No Brasil, estamos acostumados a falar sobre os hot rods, porém muito pouco se fala sobre as pessoas por trás de cada projeto. Cada carro começa, invariavelmente, com um sonho, e cada projeto concluído demonstra que seu idealizador não desistiu.

Hoje não vamos falar sobre carros e seus detalhes, mas mergulhar nos sonhos de um dos maiores construtores de hot rods que temos no Brasil, Sergio Liebel.

Até o final da década de 1990, Sergio era piloto de aviões, quando subitamente foi impedido de voar devido a problemas de saúde. Eternamente apaixonado por antiguidades, Sergio tinha vontade de restaurar e voar em um avião antigo, quem sabe um biplano da década de 1920, ou um avião da Segunda Guerra. Porém, mesmo nos Estados Unidos, isso é muito difícil e caro. Aqui no Brasil, beira o impossível.

Certo dia, quando vasculhava as prateleiras de uma conhecida livraria de Curitiba à procura de revistas com aviões antigos, Sergio se viu hipnotizado com a capa de uma revista americana na qual dividiam a mesma foto um biplano e um hot rod. Certamente o primeiro olhar foi para o avião. Comprou a revista e, em casa, após se deliciar com cada detalhe do avião, Sergio, intrigado, começou a enxergar o que de mais interessante havia na revista.

Folheando as páginas viu cada carro, admirou seus detalhes e acredito que neste instante foi contaminado irremediavelmente com o vírus da ferrugem. Na mesma hora decidiu que queria comprar um hot rod.

Clube de hots

Descobriu que, em Curitiba, existia um clube de hots, e foi fácil descobrir onde se reuniam. Conversou com pessoas e viu muitos carros, mas um em especial chamou sua atenção. Era um Ford 1934 3 janelas amarelo. Após algumas horas de conversa Sergio adquiriu o velho Ford, conheceu também donos de oficinas especializadas e começou a frequentá-las, sempre curioso, perguntando por tudo. Ficou apaixonado por um par de faróis em aço inox polido do 34, porém o preço que lhe pediram era um absurdo. Após pensar por alguns minutos decidiu que iria, ele mesmo, aos EUA, buscar o par de faróis.

A maioria dos rodders pensa em seus projetos boa parte do tempo. Com nosso amigo não era diferente, amanhecia e anoitecia e ele estava pensando em hot rods. Em sua primeira viagem em busca de peças, Sergio descobriu que nos EUA acontecem vários encontros de carros antigos e hot rods. Não teve dúvida, começou a frequentar esses encontros sempre que possível.

Sergio Liebel passou a respirar hot rods, voltou ao Brasil e se deparou com o problema que é o desespero de quase todo rodder, mão de obra especializada para a construção de um ótimo carro. Mas Sergio não é dessas pessoas que desistem facilmente. Não encontrando uma oficina do seu agrado, decidiu ele mesmo montar sua oficina. Comprou um Ford Roadster modelo A, conheceu um lanterneiro que lhe foi indicado, porém com medo de errar, decidiu comprar um Tudor e entregou ao lanterneiro para que o fizesse primeiro como experiência. A experiência deu certo e a oficina que ganhou o nome de Hot & Rusty começou a funcionar.

Peças artesanais

Com um bom gosto muito apurado, Sergio tinha dificuldade em aceitar serviços de terceiros. Ele me disse uma vez: “As pessoas não entendem. Às vezes, na pressa, querem fazer as coisas de qualquer jeito, e eu simplesmente não consigo fazer assim, para mim cada detalhe é importante”. Pensando desta forma, sua oficina, além de contar com profissionais extremamente gabaritados, e que acabaram se especializando principalmente em Ford da década de 30, também conta com maquinário que lhe permite reproduzir peças de qualquer parte da carroceria com alta qualidade, muitas vezes até melhor que as peças originais dos carros.

Com mesa de gabarito e ferramentas especiais, a oficina também constrói chassis, suspensões, pedaleiras, colunas de direção, enfim, praticamente todos os detalhes necessários a um bom projeto.

Em suas viagens aos EUA, Sergio acabou conhecendo alguns dos maiores nomes da construção de hot rods do mundo, verdadeiros ícones como George Barris, Roy Brizio, Boyd Codington, Dan Fink, Pete Chapouris e até Billy Gibbons, rodder de carteirinha e vocalista da banda ZZ Top. Uma vez, em um evento em Pomona, Sergio conheceu um rapaz magro e bem humorado, que estava apresentando um projeto muito interessante, mas o que mais o impressionou foram seus desenhos. O nome desse rapaz era Chip Foose, alguns anos mais tarde estaria explodindo no mundo todo com a série de TV Overhaulin. Sergio já visitou todos os grandes eventos dos EUA.

Apesar de ter feito alguns carros de terceiros, Sergio sempre deu seu toque pessoal a cada projeto, ajudou muitos amigos a concluir projetos que foram abandonados por outras oficinas e sempre se mostra como grande incentivador a qualquer pessoa que tenha interesse em hot rods.

Limusine para noivas

Como todo bom rodder, ele não ficou apenas na restauração e adaptação de carros, usou sua criatividade extrema para idealizar projetos como uma Limusine Ford 1930 (carro construído em homenagem à mãe dele), que foi alongada, alargada e moldada de forma a manter seu charme com proporções perfeitas. Este carro é utilizado para conduzir noivas e o motorista, é claro, que não poderia ser ninguém menos do que seu idealizador. Também criou uma picape 1930 com cabine alongada como se fosse um 5 janelas.

O acabamento perfeito é sua marca registrada. Sergio tem verdadeira paixão por flames, basta ver seus projetos para entender. Ele participa ativamente dos projetos, criando, juntamente com sua equipe, cada detalhe, quer seja na construção da carroceria, na pintura ou mesmo no estofamento personalizado.

Infelizmente, Sergio não tem como ficar com todos os carros que constrói, mas não conheço nenhum carro que ele tenha feito com a intenção de vender. Ele faz porque gosta, e tem que vender simplesmente porque precisa começar outro, ou outros, projetos. Diz que sua oficina nunca deu lucro, Sergio costuma dizer “Eu não vivo disso, eu vivo isso” referindo-se à criação de hot rods.

O rodder tem nítida preferência pelos Ford modelo A de 1928 a 1931, porém também é apaixonado pelos modelos de 1932 e 1934, mas tem em seu curriculum carros como Fords 1939, 1940, 1951, entre tantos outros. Não me atrevo a tentar dizer qual foi seu melhor projeto, acredito que nem ele possa fazer isso.

Sergio e sua equipe já construíram mais de 30 hot rods, todos impecavelmente bem acabados. Esses carros embelezam as garagens de seus donos e também as ruas e os eventos de carros pelo pais. Ele coleciona incríveis 12 capas da revista Hot Rods, com seus carros, além de vários prêmios outorgados em encontros dos quais participou pelo Brasil afora.

Viver é melhor que sonhar, e é isso que faz nosso amigo Sergio Liebel. Ele vive transformando sonhos em realidade. Tomara que continue assim por muito, muito tempo ainda.

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